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Você nasceu há dez
mil anos atrás?
Em
toda palestra que eu faço, chega uma hora que uma mocinha com uma voz
preconceituosa me pergunta o que eu acho do Paulo. Sei que ela espera
que eu espinafre com ele. E, para decepção dela, elogio. Quem sou eu
para duvidar da capacidade profissional de um brasileiro que já vendeu
20 milhões de livros pelo mundo afora? Sem falar que é o autor
predileto da Julia Roberts! Quem me dera que ela lesse uma única
palavrinha minha. E o Bill Clinton, que não é nenhum débil, passeava
com ele debaixo do braço pela Casa Branca, entre um charuto e outro.
Agora,
eleito pela Academia Brasileira de Letras, vejo os colegas dos cadernos
de cultura fazerem comentários nada favoráveis ao colega imortal.
Colega que recebeu do presidente francês a condecoração máxima dada
a um intelectual por aquele país.
Não
me cabe discutir a qualidade literária do Paulo. Mas, como escritor,
sei mais ou menos a origem do preconceito. No Brasil, escritor não pode
ganhar dinheiro. É chamado de mercenário. Me lembro que, falando para
estudantes em Campinas, disse que estava recebendo para fazer aquela
palestra. Levei porradas ao vivo. Engenheiro pode cobrar por palestras.
Médico, pode. Nós, não. Não sei do que eles pensam que vivemos.
Mas
voltemos ao Paulo. Vamos começar pelas letras que ele fazia para o Raul
Seixas na década de 70. Oito em cada dez músicas do Raulzito têm
letra dele. Letras que já passaram para uma nova geração, que delira
com o rock daquele músico. Tudo texto do Paulo. Só aquelas letras já
bastariam para colocar o Paulo em qualquer academia de letras do mundo.
Afinal, o cara nasceu há 10 mil anos atrás.
O
que os "críticos" da literatura do Paulo precisam entender é
que, se ele foi lido por 5 milhões de brasileiros, você pode ter
certeza que 4 milhões leram um livro pela primeira vez. Ou seja, ele
está formando um contingente (palavrinha esquisita esta) de novos
leitores. Mais ou menos como a criadora do Harry Porter. Ninguém na
Academia vendeu mais letras do que o Paulo. Tem gente lá dentro que
vende sorrisos plásticos e ninguém fala nada. Sou mais o sorriso de
mago do Paulo. Ele é a mosca que pousou na sua sopa, minha filha.
Não
conheço o Paulo pessoalmente, mas tenho o maior respeito desde os anos
70. Temos a mesma idade e a mesma formação. Trabalhava na Última Hora
quando ele e o Raul estouraram. Fui dos primeiros jornalistas a abrir
espaços para aqueles roqueiros, já, na época, olhados meio de lado
pelos compositores de esquerda, pelos acadêmicos da USP-PUC. O rock
deles deu uma guinada na música brasileira. Tocavam guitarra elétrica
(um ultraje ao pudor musical naquele tempo), enchiam a cara e fumavam
maconha. Os militares ficavam irritadíssimos com aqueles meninos. E o
Samuel Wainer, diretor do jornal, me dizia: página inteira pra eles, página
inteira! E, do alto de sua sabedoria, assoviava aquelas músicas todas.
Era engraçado.
Paulo
Coelho, ao receber uma grana preta da Editora Objetiva há uns cinco
anos, profissionalizou o nosso ofício. Fez com que as editoras
brasileiras começassem a encarar o livro como um produto de 1 milhão
de dólares e não apenas de 10 mil reais. Paulo Coelho deu-nos a
dignidade de podermos cobrar pelo nosso trabalho. E, se você acha que
isso é ser um mau escritor, que isso é ser mercenário, é porque você
não nasceu há 10 mil anos atrás.
Parabenizo
a Academia Brasileira de Letras. Aqueles 22 simpáticos velhinhos que
votaram no Paulo sabem muito bem o que fizeram pela literatura
brasileira.
Se
os livros do Paulo são bons ou ruins, depende do ponto de vista e exigência
de cada um. Mas que ele é muito melhor que o Saramago (Prêmio Nobel de
Literatura), por exemplo, eu não tenho a menor dúvida.
Mario
Prata
http://www.marioprataonline.com.br
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