Trecho Livro A Música do Mundo
Livro Esotérico        

 

Trecho do livro

A Música do Mundo

(...)Já era tarde da noite e todos dormiam, enquanto Monir caminhava silenciosamente pelos corredores da mansão. Parou na porta do quarto de Horácio e entrou.

– Horácio! – disse, acordando-o.

– Monir, o que houve? Algum problema?

– Só se for para o meu pai, que perderá o herdeiro, e para você, que perderá o emprego.

– O que quer dizer?

E Monir contou toda a conversa que teve com seu pai à tarde.

– Agora vou embora. Meu pai não me deixa outra alternativa.

– Por mais que no momento você duvide disso, é um rapaz valente – disse Horácio.

Dirigiu-se até o seu armário e trouxe um saco de dinheiro e entregou-o a Monir.

– Não posso aceitar.

– Considere como um presente de boa sorte para sua nova vida. Você não recusaria um presente de boa sorte, recusaria?

– Obrigado e adeus, amigo – disse Monir.

– Espere. Antes de partir quero lhe contar uma história.
”Num palácio ao norte de Al-Qahira, um árabe muito sábio havia sido chamado pelo rei, que acabara de ascender ao trono, para cumprir uma Missão.”
”– Caro amigo – disse o rei. – Um grande império se estende diante mim, acredito que meus dias pelo mundo serão longos e desejo que estes sejam coroados de glória pelos tempos vindouros. E nesse pouco tempo em que tenho governado já lidei com vários tipos de pessoas. Já fui amado e odiado, enaltecido e humilhado, já conheci a sinceridade e a traição. O que desejo de ti é que sonde a alma dos homens. Conhece todo o tipo de gente e diz-me de qual pessoa devo me aproximar e de qual devo me apartar”. E lhe entregou dinheiro para que viajasse porum ano e muitos rolos de pergaminho para que anotasse tudo o que pudesse descobrir sobre os homens.

Eis que nas primeiras semanas de viagem, o sábio árabe encontrou uma caravana que cruzava o deserto rumo às pirâmides do Egito. No primeiro dia de viagem fez quatro amigos: um inglês, um andarilho, um espanhol e um peregrino. Conversaram um pouco e o árabe logo percebeu que o inglês não era companhia agradável para uma viagem tão longa. Quando o sábio falava do seu Deus, Alah, o inglês o retorquia, dizendo que o seu Deus e a sua religião eram únicos – somente eles representavam a salvação. Quando falava de Amor, o inglês dizia que o conhecia muito bem. “– Já ouvi falar de um homem que veio ao mundo para dizer que todo mundo era bom e que ninguém era tão mau assim. Mas ele se enganou, pois o seu próprio amor foi a sua ruína e aqueles que julgava que o amavam acabaram lhe traindo. E é mesmo assim que as coisas são. Aqueles aquem entregamos nosso amor terminam nos fazendo sofrer e chorar. E mesmo que recebamos de volta um pouco daquilo que damos, ainda assim não compensará a dor que o amor nos traz”. “– Crer que a sua religião é boa e correta é algo muito bom – disse o árabe – Mas crer que a sua religião é e deve ser a única pode ser algo fatal. Por causa de pensamentos assim milhares de pessoas sofrem e morrem todos os dias. Quanto ao Amor, ama-se pelo simples fato de se desejar nossos bons sentimentos a alguém. Quando amamos esperando possuir alguém, ou esperando alguma coisa em troca, amamos da forma errada, amamos de uma forma egoísta”. O inglês ouviu aquelas palavras com um respeito desdenhoso. O árabe percebeu que ele não acreditara nelas e não queria ouvi-las. Logo o rapaz se afastou. Os outros companheiros permaneceram com o árabe.

O andarilho continuou ao seu lado porque ele falava sobre Alah e sobre o Amor. Ele já ouvira falar sobre Alah, e também sobre o Amor, mas não da forma tão bela que ouvia agora.

O espanhol também permaneceu. O árabe chamava Deus de Alah, mas algo dizia ao espanhol que no fim tudo era a mesma coisa e que todos os deuses eram um só Deus. Conforme o árabe falava, sentia que coisas adormecidas despertavam dentro dele.

O peregrino também permaneceu. Disse que não acreditava em Deus, mas acreditava no Amor. “– E se Deus é Amor, como as pessoas dizem, então eu também estou seguro”.

A viagem até as pirâmides terminou, o sábio encontrou muitas pessoas, mas concluiu que sua missão já havia chegado ao fim – graças aos quatro amigos que cruzou no início da viagem. E antes que se esgotasse o prazo dado pelo rei, o sábio retornou. Quando entrou no palácio, o rei ficou surpreso ao vê-lo retornar tão cedo. Porém, percebeu que estava com as mãos vazias.

“-Vejo que cumpriste tua Missão, caro amigo. Mas onde estão os rolos de pergaminho que lhe dei para que anotasse teus relatos?”.

E o sábioárabe retirou do bolso um pequeno pedaço de papiro, estendendo-o ao rei. ”– Aqui está contido tudo o que precisa saber sobre os homens”.

Duvidoso, o rei pôs-se a ler o papiro e ficou maravilhado com a simplicidade e a grandeza de suas palavras. Nele estava escrito o seguinte:

"São quatro os homens:

Aquele que não sabe e não sabe que não sabe. É um tolo. Evita-o.

Aquele que não sabe e sabe que não sabe. É um humilde. Instrua-o.

Aquele que sabe e não sabe que sabe. Está dormindo. Desperta-o.

Aquele que sabe e sabe que sabe. É um sábio.
Siga-o”.

– Este é um antigo provérbio árabe – disse Horácio. – Espero que lhe seja útil em sua viagem.

– Adeus e obrigado, meu amigo – disse Monir, dando-lhe um abraço.

 

 (...)Os ensinamentos que Monir recebeu, além de suas próprias reflexões, foram reunidos e escritos num caderno, que Monir passou a chamar de O Livro dos Pensamentos.

“A Perfeição.

Quisera eu agir com perfeição a cada instante, mas falho. Quisera eu jamais me arrepender, mas erro.

Quisera eu jamais tropeçar em pedra alguma, mas nem sempre enxergo direito. Quisera eu sempre dar bons conselhos, mas sei que não sei de tudo. Quisera eu aprender tudo de maneira correta, mas nem sempre ouço direito. Quisera eu amar tudo o tempo todo, mas nem sempre consigo. Eu poderia encontrar, como muitos encontram, diversos motivos para acreditar que minha existência e minha vida são inúteis, que sou um completo fracasso. Mas...

Eu poderia fazer tudo errado, mas muitas vezes eu acerto. Eu poderia tropeçar a vida inteira, a todo instante, mas consigo observar as pedras nas quais tope e evitar a próxima queda. Eu poderia dizer bobagens em cima de bobagens, mas admito, com humildade, que as vezes consigo dizer algumas coisas sábias. Eu poderia aprender tudo errado, mas, diversas vezes, aprendo da forma correta. Eu poderia odiar tudo: minha vida, o mundo, minha condição social, as pessoas com quem convivo... Mas eu sei que sou igual a todo mundo, e que apesar de todos os meus erros, apesar de não conseguir aceitar tudo o que o fluxo da vida me traz, terei sempre mais motivos para amar do que para odiar, e é isso o que me faz seguir em frente, nunca desistindo ou perdendo a esperança de ser alguém melhor do que eu era antes”.

 

Lisandro

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