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Encerrando um ciclo
Há alguns anos meu escritório
recebe cartas de leitores de língua espanhola, de muitos paises do
mundo, solicitando o meu texto "Encerrando Ciclos". Há alguns
anos, meu escritório envia uma cópia da coluna que publiquei neste
espaço, com o título de "O Ciclo da Alegria". Abrindo minha
caixa de correspondência certa manhã, vi que pediam o texto "As
Etapas de Paulo Coelho". Como nunca tinha escrito algo semelhante,
fui procurar na internet, e descobri que era um título diferente para o
tal "Encerrando Ciclos". Descobri também que durante muitos
anos mandamos sempre a coluna errada para os leitores - que na verdade
queriam o texto abaixo. Não fui eu quem escreveu o original
(infelizmente) mas resolvi adapta-lo, e agora posso pelo menos
reivindicar parte de sua autoria:
Sempre é preciso saber quando uma etapa chega ao final. Se insistimos
em permanecer nela mais do que o tempo necessário, perdemos a alegria e
o sentido das outras etapas que precisamos viver. Encerrando ciclos,
fechando portas, terminando capítulos - não importa o nome que damos,
o que importa é deixar no passado os momentos da vida que já se
acabaram. Foi despedido do trabalho? Terminou uma relação? Deixou a
casa dos pais? Partiu para viver em outro país? A amizade tão
longamente cultivada desapareceu sem explicações? Você pode passar
muito tempo se perguntando por que isso aconteceu. Pode dizer para si
mesmo que não dará mais um passo enquanto não entender as razões que
levaram certas coisas, que eram tão importantes e sólidas em sua vida,
serem subitamente transformadas em pó. Mas tal atitude será um
desgaste imenso para todos: seus pais, seu marido ou esposa, seus
amigos, seus filhos, sua irmã, todos estarão encerrando capítulos,
virando a folha, seguindo adiante, e todos sofrerão ao ver que você
está parado. Ninguém pode estar ao mesmo tempo no presente e no
passado, nem mesmo quando tentamos entender as coisas que acontecem
conosco. O que passou não voltará: não podemos ser eternamente
meninos, adolescentes tardios, filhos que sentem-se culpados ou
rancorosos com os pais, amantes que revivem noite e dia uma ligação
com quem já foi embora e não tem a menor intenção de voltar. As
coisas passam, e o melhor que fazemos é deixar que elas realmente
possam ir embora. Por isso é tão importante (por mais doloroso que
seja!) destruir recordações, mudar de casa, dar muitas coisas para
orfanatos, vender ou doar os livros que tem. Tudo neste mundo visível
é uma manifestação do mundo invisível, do que está acontecendo em
nosso coração - e o desfazer-se de certas lembranças significa também
abrir espaço para que outras tomem o seu lugar. Deixar ir embora.
Soltar. Desprender-se. Ninguém está jogando nesta vida com cartas
marcadas, portanto as vezes ganhamos, e as vezes perdemos. Não espere
que devolvam algo, não espere que reconheçam seu esforço, que
descubram seu gênio, que entendam seu amor. Pare de ligar sua televisão
emocional e assistir sempre ao mesmo programa, que mostra como você
sofreu com determinada perda: isso o está apenas envenenando, e nada
mais. Não há nada mais perigoso que rompimentos amorosos que não são
aceitos, promessas de emprego que não tem data marcada para começar,
decisões que sempre são adiadas em nome do "momento ideal."
Antes de começar um capitulo novo, é preciso terminar o antigo: diga a
si mesmo que o que passou, jamais voltará. Lembre-se que houve uma época
em que podia viver sem aquilo, sem aquela pessoa - nada é insubstituível,
um hábito não é uma necessidade. Pode parecer óbvio, pode mesmo ser
difícil, mas é muito importante. Encerrando ciclos. Não por causa do
orgulho, por incapacidade, ou por soberba, mas porque simplesmente
aquilo já não se encaixa mais na sua vida. Feche a porta, mude o
disco, limpe a casa, sacuda a poeira. Deixe de ser quem era, e se
transforme em quem é.
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