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Pensar Diferente (para
sermos iguais) 19/09/2008
- O que é preciso para
mudar o mundo? - perguntou o repórter ao mestre, com uma voz carregada
de sarcasmo, durante a convenção no grande auditório, onde milhares de
pessoas foram ouvir suas palavras.
- Amor. Só ele é capaz de mudar o mundo. Se você acha difícil amar,
comece utilizando um de seus sinônimos: respeito, delicadeza, paciência,
tolerância, benevolência, mansidão, serenidade, humildade, alegria,
compaixão, felicidade, unidade, divisão...
- Tenho ouvido que pensar diferente é uma forma de mudar o mundo -
completou, procurando uma maneira de encontrar uma falha nos
ensinamentos do mestre e ridicularizá-lo na frente da multidão.
- Deveras. O pensamento é uma arma poderosa, capaz de criar e
materializar tudo o que desejamos, desde que tenhamos fé nesse
pensamento.
- Isso é Deus? - ele estava quase lá. Mais um passo e tudo terminaria da
maneira que desejava.
- Sim. Isso é Deus. Adquirir uma nova forma de pensar e passar a agir da
maneira que pensamos. Pensar e agir, são duas maneiras de mudar o mundo.
Mesmo que com a menor das intenções. O esforço de apenas um indivíduo,
na menor das coisas, já é capaz de fazer a diferença. Sintonize sua
forma de pensar com sua maneira de agir.
E agora o golpe final. A
pergunta que costumava fazer a muitos "gurus" da era moderna e que
acabava sempre em desastre, tirando-lhes a compostura. Eles começavam
falando mansamente, mas, conforme a insistência do repórter, passavam a
tentar convencer a multidão, geralmente com teorias espiritualizadas sem
nenhuma base ou fundamento concreto. Quando não tinham nada mais a
dizer, e para se safar de todas as questões, terminavam com um taxativo:
"Você deve ter fé. Sem ela, nada é possível", separando os crentes (num
caminho inexistente), das pessoas despertas, que eram guiadas pela razão
e inteligência. No outro dia, uma matéria em destaque e debochada no
jornal, dizendo com palavras cultas, e indiretas zombeteiras, que mais
um charlatão e enganador havia sido descoberto, como sempre.
Mas aquele não era um dia
como os outros. Pois aquele não era um mestre como os outros.
Tudo era diferente.
- Não seria esse um
pensamento prepotente e nada humilde? - perguntou o repórter. - Pensar
diferente: significa ser diferente, querer se destacar da humanidade
comum, das pessoas que trazem um estilo de vida comum? Afastar de si
pessoas que muitas vezes não têm o desejo de se tornar espiritualizadas,
e que, muitas vezes, sequer acreditam em Deus?
O mestre lançou um olhar
sereno ao repórter e respondeu:
- Não. Começando pela
última pergunta, o maior erro da humanidade é crer que, para se
desenvolver uma revolução espiritual, elas precisam crer no mundo do
espírito e com isso se tornar diferentes das pessoas descrentes. Isso
não é necessário. Na verdade, eu prego apenas uma nova consciência, para
crentes e descrentes. Um caminho que possa existir para aquele que tem
fé, e também para o ateu. Porque o Amor, e seus sinônimos, como o
respeito, digo, repito e insisto, podem existir para todos.
Não é preciso crer nos deuses ou seguir essa ou aquela religião para se
adquirir uma filosofia como esta e definitivamente mudar o mundo.
"Quanto à primeira
questão, para mim, pensar diferente significa considerar os sinônimos do
Amor para com tudo e todos. Agir no dia-a-dia praticando esses
sinônimos: praticar uma revolta amorosa, não contra a violência, mas a
favor da paz, não contra o mal, mas a favor do bem. Quando nos opomos a
algo, damos ainda mais força a isso. Sempre a favor de algo, nunca
contra; Agradecer pelo novo dia que começa, pela saúde que temos.
Podemos ter uma vida financeira ou social difícil, mas olhar as coisas
boas e agradecer, tirando o foco das coisas negativas, deixando de falar
das estrelas que não nasceram, e sim daquelas que estão a brilhar. Mas
agradecer a quem? Aos deuses. Se você não acredita? Agradeça por
agradecer. Você irá se sentir bem. Não posso provar como e porque isso
acontece, mas garanto que você irá se sentir bem com isso. Mas se você
não se sentir bem, e me disser isso com sinceridade, eu paro de realizar
minha pregação por esta nova consciência; Ao ver uma pessoa na rua, ao
invés de pensar: essa não é uma boa pessoa, cumprimentá-la e abençoá-la
(porque todos podem, bendizer e abençoar, mesmo sem fé) e se não for
possível desejar isso a ela em voz alta, o faça mentalmente; Recolher do
chão aquele papel de bala que o vizinho jogou, sem nunca reclamar (um
dia, por seu ato paciente e benevolente, ele irá parar de jogar sujeiras
na rua - eu sei, porque já pratiquei isso); Ajudar aquele artista que se
apresenta na rua, porque a arte é importante, mesmo que não entendamos
direito porquê (muitas revoluções mundiais ocorreram por causa da arte e
ela está a curar o mundo, servindo até como terapia); Se você não gosta
de dar dinheiro ao pedinte, compre do vendedor ambulante aquele doce
que ele está vendendo, aquela caneta, mesmo que você não precise dessas
coisas, mesmo que elas não tenham o valor que o vendedor pede - afinal,
ele está trabalhando, e você quer ajudar a quem trabalha; Guarde o lixo
reciclável e separe ao catador de papéis; Se não gosta dos animais, ao
menos respeite-os (o sinônimo do amor, de volta) - você não precisa
tratá-los mal, não é verdade? - somente os tolos agem assim; Aliás, você
não precisa tratar nada ou ninguém de maneira agressiva. Podemos sempre,
em todo e qualquer ato, agir de maneira benevolente, saudável, positiva,
com ou sem Deus, com ou sem fé no mundo espiritual ou no Universo. O
Amor e seus sinônimos, repito e insisto novamente, existem para todos e
se praticados, te farão bem. E não é necessário nenhuma pesquisa sobre
isso, nada é necessário para te mostrar que o mundo é o reflexo de suas
ações e te devolvem, imediatamente, o que você lança nele: se você pensa
bem de uma pessoa, é você quem sente o bem desse pensamento. Se você
ajuda alguém, desde que com vontade e prazer de fazer isso, se sentirá
bem. Enfim, se tem prazer nas coisas que faz, para as pessoas e pelo
mundo e o faz por livre e espontânea vontade, não se sentirá bem? Alguém
precisa realizar uma pesquisa para mostrar e provar a verdade dessa Lei
tão simples?"
O mestre parou de falar.
O repórter estava mudo. Não achou que seria inteligente continuar com
seu sarcasmo. Porque acreditava, de certa forma, na lei da qual o homem
falava: ação e reação. Pensar diferente, ser diferente, agir diferente.
Até agora ele acreditava ser uma dessas pessoas, mas percebia como
projetava isso de maneira errada. Portanto, ao invés de questionar o
mestre de forma irônica, seu silêncio era uma forma de não resistir. E
resolveu praticar, naquele momento, esta nova lei, deixando tudo fluir,
ao invés de encontrar uma falha nos ensinamentos do homem. Abandonar o
que não acreditava e aceitar aquilo que lhe era bom. Apoiar as boas
idéias ao invés de querer destruí-lo, simplesmente por ele ser
"diferente" dos demais. A poucos instantes, isso lhe fazia sentir raiva,
pois levava-o a acreditar que a maioria desses líderes separava a
humanidade, ao invés de uní-la. Nunca havia pensado que, mesmo sendo
alguém sem fé, poderia adotar uma consciência saudável e racional como
aquela. Ao invés de raiva, nutriu pelo sábio mestre um sentimento de
admiração. Lhe direcionou em pensamento a melhor das intenções. O
sentimento que isso lhe trouxe foi bom, e realmente provou que a Lei
funcionava, instantaneamente, sem que precisasse ser provada
cientificamente. Sem que precisasse acreditar nos deuses.
Como se soubesse o que
ele estava pensando, o mestre sorriu e olhou para o repórter.
- Se pensar diferente nos
torna arrogantes e soberbos aos demais? Bem, você sabe que isso não é
verdade. Somente quando criarmos este tipo de filosofia unificada e
mostrarmos que o ceticismo e a fé espiritual caminham juntas, é que
faremos as pessoas entenderem que, no dia em que todos pensarem
diferente, só então seremos todos iguais.
Todo o auditório aplaudiu
de pé. A vida de muitas pessoas, inclusive a do repórter, havia mudado
para sempre. Porque o mestre não estava tentando convencer ou converter
ninguém. Ele estava simplesmente, amando. E isso, de certa forma, não o
tornava diferente, mas fazia toda a diferença.
Lisandro
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