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Travesseiro de Seda
21/06/2008
Quando Hafid, um pobre músico das
redondezas, conseguiu a fama e o sucesso, deixou para trás o passado
pobre, de luta e sofrimento. Hafid nasceu ao norte do pequeno
vilarejo, sua mãe havia morrido cedo e seu pai o criou, trabalhando
duro no campo para ganhar umas poucas moedas. Hafid levou anos para
conseguir chamar a atenção de alguns estrangeiros, que às vezes
passavam pelo local. Mas finalmente, a fama e o sucesso que tanto
desejou, chegaram. Um rico viajante gostou do seu trabalho,
financiou sua carreira e as contratações não cessaram depois disso.
Após ficar rico, parou de andar com os amigos do passado, tornou-se
mais exigente com as roupas que vestia, o alimento que trazia para
casa e desdenhava praticamente tudo, fazendo sempre um comparativo
com a vida medíocre que levara. Deixou seu pai morando na mesma casa
que outrora, enquanto morava numa mansão, no alto da montanha,
onde recebia poucas visitas. Uma dessas poucas visitas era um amigo,
também músico, de muita fama e sucesso. Porém, diferente dele, havia
tido uma família rica desde a infância, mas que, assim como Hafid,
não sabia dar valor às pequenas coisas que possuía. Certo dia, o pai
de Hafid, muito doente, pediu que o filho o visitasse. O rapaz
recuou inicialmente, pedindo que seu pai fosse até sua casa, pois
não gostava de andar por aquela parte pobre do vilarejo. Mas foi
informado de que o estado de seu pai era realmente grave e não teve
outra opção. Chegando ao vilarejo, virava o rosto para os pobres e
mendigos, fazendo uma expressão de repulsa para tudo e todos. Quando
entrou no casebre que vivera outrora, viu seu pai deitado no leito.
Foi até ele.
- Tenho pouco tempo. Logo deverei realizar algumas apresentações no
palácio do rei. Por favor, seja breve.
- Por muitas vezes, meu filho, tentei abrir seus olhos para a
ganância e cobiça que brotaram em seu coração. Mas é claro, isso foi
em vão. Muita gente pobre, por sorte ou destino, consegue um dia
adquirir grande riqueza, e a maioria delas nunca ergue a cabeça em
direção ao sol, pois sabe que isso irá cegá-las - é um claro sinal
de humildade, de saber valorizar a riqueza adquirida, pelo passado
difícil que tiveram. Geralmente as pessoas que não sabem dar esse
valor ao que possuem, já nasceram afortunadas desde criança, como é
o caso do seu amigo. Ele nunca passou dificuldade na vida, nunca
soube o que é a dor de sustentar um filho com o pouco ganho dia a
dia no campo. Ele só saberá dar valor ao que possui, se um dia
perder tudo isso - o que não desejo a ele e a ninguém, com toda
certeza.
"Mas você, meu filho, que veio de baixo, de uma vida humilde,
deveria saber que você não é feito do dinheiro e da fama que possui.
Que isso um dia poderá passar e trazer-lhe muita dor. Deve lembrar
que um dia foi igual a todos os habitantes desta vila. Veja que este
desprezo que trás por eles, agora que é um homem rico, é o mesmo
desprezo que outras pessoas em sua posição traziam por nós, por
você. E você sabe: isso não é nada agradável. Quantas vezes você não
desejou que ao invés desse desprezo eles nos trouxessem um pouco de
sua compaixão e ajuda? E agora meu filho, você age feito um deles.
Não aprendeu, apesar de eu sempre haver lhe falado, de que era
necessário adquirir primeiro a riqueza espiritual, para
saber o que fazer com a riqueza material. Pois quem não sabe disso
muitas vezes compra um travesseiro de seda para apenas chorar sobre
ele mais tarde.
O pai de Hafid estendeu a mão, pedindo que o filho a segurasse. O
rapaz ficou um pouco desconfortável, mas permitiu que o contato
permanecesse, enquanto seu pai tornava a falar.
- Minha vida está chegando ao fim. Neste momento eu
meditei muito sobre tudo o que aconteceu comigo até aqui. Eu também
lutei muito por riqueza, trabalhei noites sem fim e quase não dei
atenção à você e sua mãe e me arrependo muito disso. Percebi que a
vida não é feita somente de trabalho, de dinheiro, de aparências e
ilusões. A vida é feita pura e simplesmente de Amor e de pessoas.
Agora, na hora de minha morte, a única coisa que me vem a mente são
as pessoas que amo, pois isso, percebo, são as coisas mais
importantes do mundo. Eu não me importo mais com os sonhos que não
realizei, nem com o dinheiro que deixei de ganhar, nem com a
humilhação que sofri durante esse tempo. A única coisa que me
importa são as pessoas que me são queridas e a dor, de saber quão
pouco tempo eu passei junto delas.
"Preste atenção em minhas palavras, meu filho. Um dia a velhice irá
chegar até você. Um dia você não terá mais os amigos com quem
caminhou, não terá sua esposa, e talvez até mesmo seus filhos
estejam longe de você. E no fim de tudo, quando você se der conta
disso, poderá ver que já é tarde demais, e que o tempo não
voltará para que você possa reviver os preciosos momentos que nunca
teve com as pessoas que ama. É isso, e não o dinheiro ou a carreira
que venera, que realmente importa. Guarde isso em seu coração. É o
pedido de seu velho pai antes de partir.
Hafid chorou amargamente. Ouvira certa vez que somente um
acontecimento muito intenso poderia mudar a vida de uma pessoa e
agora acreditava nisso. Naquele mesmo dia, enquanto retornava para
casa, passou a reparar nas pessoas do vilarejo. Pessoas iguais a
ele, com sonhos parecidos com o dele: ter uma vida confortável,
tranqüila, "ser alguém na vida". E sentiu-se grato por tudo o que
possuía, por não ter mais que sacrificar suas horas como músico pelo
trabalho no campo; suas fartas e refinadas refeições pelo pão seco
que era obrigado a comer na infância; as belas e finas roupas que
vestia pelos trapos que o deixavam passar frio no inverno... Sentiu
pena, ou melhor, compaixão, como seu pai dizia ser o termo adequado,
das pessoas dali. E decidiu que iria ajudá-las de alguma forma -
quem sabe chamando a atenção de seus nobres contratantes, que muitas
vezes viajavam pela região. Promoveria apresentações na praça da
cidade e arrecadaria fundos para a população, trazendo riqueza para
a cidade. Mas uma de suas primeiras atitudes, foi trazer seu pai
para morar com ele e lhe dar mais atenção e cuidado naquela hora tão
difícil.
O pai de Hafid morreu duas semanas mais tarde - as duas semanas mais
intensas que o rapaz havia vivido com ele. Conversaram sobre tudo o
que não haviam conversado durante toda a vida. Onde as máscaras não
imperavam, onde só a verdade e o Amor, de duas pessoas que descobrem
ser esse o verdadeiro sentido da vida, existiam.
Anos mais tarde,
quando Hafid estava velho e cheio de dias, pegou-se pensando em seu
pai e naquelas duas semanas tão felizes que haviam vivido. Pensou
também em sua esposa e filhos, nos amigos que freqüentemente
visitavam sua casa e no povo do vilarejo, que havia conquistado uma
vida um pouco mais digna, ainda pobre, mas ao menos livre da
miséria. E a lembrança de todas essas pessoas fez escorrer de
seus olhos algumas lágrimas.
"Lágrimas de
Amor e de alegria,
não de tristeza", pensou Hafid, aconchegando o rosto em seu fino
travesseiro de seda.
Lisandro |