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Mil Vidas, Mil
Mortes 31/05/2008
Quando Francisco de Assis recebeu de
um menino a notícia de que um de seus vizinhos, que morava
sozinho, havia morrido, se encarregou de cuidar dos animais que
haviam ficado órfãos - um cachorro, dois gatos e um passarinho.
Este último, o garoto o havia trazido até ele. Estava preso numa
gaiola. Como Francisco de Assis era o protetor dos animais,
tratou de libertar o pobre bichinho e colocou-o numa outra
gaiola, que ele mesmo havia construído. Era muito grande e com
uma diferença das demais gaiolas que existem por aí: sua porta
vivia sempre aberta, para que ali viessem e fossem embora os
pássaros que assim o desejassem. Ao observar o fato, o menino
exclamou:
- Não faça isso.O antigo dono do pássaro o mantinha preso por
medo que ele morresse, vítima de um predador ou por algum
acidente. Também gostava de admirar sempre que desejasse a sua
beleza.
- Ninguém tem o
direito de manter a vida enjaulada. Por acaso ele se sentiria
bem, preso num quarto com grades? É muito belo admirar
este animal na natureza, onde ele torna-se ainda mais belo.
Onde, uma única visão dele, durante toda uma vida, valeria a
pena, pois traria a alegria de uma vida livre.
O menino foi embora. O pássaro, após alguns instantes, voou,
experimentando o sabor de bater suas asas no espaço infinito,
até perder-se no azul profundo do céu. E nele, voou como nunca
havia voado. Visitou os mais altos montes, rios, lagos e até
mesmo montanhas. Conheceu grandes florestas e pousou no topo das
mais altas árvores. Nunca havia se sentido tão bem ou sido mais
feliz.
Depois de muito tempo, já cansado, parou para beber água, perto
de um riacho e começou a comer alguns insetos que havia na
grama. Até que, de repente, um enorme gavião surgiu, querendo
caçá-lo. O passarinho voou, esquivou-se no céu, mas não
conseguiu evitar as garras do forte predador. Enfim conseguiu
soltar-se e penetrar num buraco de árvore, onde o gavião
não mais alcançou-o. Ao perceber que não havia mais perigo,
resolveu sair da toca. Todo machucado e ferido gravemente,
pensou no homem que o havia libertado e decidiu ir em busca de
ajuda. Voou velozmente de volta, avistou a enorme gaiola com sua
porta aberta e lá pousou. Francisco de Assis, ao ver o pobre
animalzinho ferido, o acolheu em suas mãos. Ele sabia que o
pássaro não resistiria. Olhou para ele e por um instante teve
seu olhar retribuído. Era como se o pássaro estivesse
agradecendo pelo pouco, mas proveitoso e feliz momento que
tivera. Como se tivesse vivido muitas eras, num único instante.
Enquanto o pássaro agonizava, Francisco de Assis, chorando,
disse a ele:
- Sei que sofres
agora. E isso me deixa muito triste. Mas em breve estarás ao
lado do Criador, onde tudo lhe parecerá como um sonho distante.
E quando lá encontrar o seu antigo dono, diga a ele este meu
recado: "Que se mil vidas eu tivesse e se em mil vidas eu
tivesse lhe encontrado, ainda assim mil vezes eu teria lhe
soltado, pois por mil vezes experimentaria, o sabor da
liberdade". .
Lisandro |