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Aquilo que deixamos
Um mercador muito rico, tinha como seu maior deleite juntar cada
vez mais dinheiro.
Dedicava-se sempre ao trabalho e pouco tempo dispunha para sua
diversão. Era arrogante, avarento, teimoso, preocupado - certo
dia quase teve um ataque do coração quando descobriu que uma de
suas caravanas quase havia sido roubada e não dormiu até
saber que havia chegado a seu destino.
Nunca havia pensado no dia em que deixaria este mundo e que toda aquela
riqueza nele ficaria.
Até que lhe sobreveio uma doença muito grave, que o deixou sem
esperança de vida. O homem de quarenta anos aparentava 70,
estava branco feito a neve, não dormia, mal se alimentava
direito. O homem se abateu, entrou em depressão. O médico havia
lhe dado poucos meses de vida.
Até que, caminhando
de volta para casa observou ao longe, nas montanhas, uma velha
que lá vivia. Era uma sábia ermitã. E como geralmente paramos para
pensar na vida quando ocorrem grandes mudanças,
ou grandes tragédias, foi que o homem ponderou sobre sua vida e
sobre a vida daquela anciã. E decidiu ter com ela.
- Olá, como se
chama?
- Não há nome algum pelo qual possam me chamar. Foi aqui nas
montanhas, sozinha comigo mesma, que descobri o princípio de
todas as ilusões e a causa de todos os males.
- Como pode viver sem ter um nome? E sem ter nada, além da relva
e da solidão?
- Cada um vive de acordo com sua Missão neste mundo e essa é a
minha.
- A solidão?
- Não. Meditar sobre a profundidade das coisas. Eu era uma
mulher muito rica, possuidora de inúmeras propriedades, mas não
era feliz. Até que certo dia decidi abandonar tudo e me isolar
do mundo. Até descobrir que não somos limitados às coisas que
julgamos possuir, nem ao nome ou a posição que temos
na sociedade.
- Isso quer dizer que devemos abandonar tudo e sermos pobres?
- Não, você não me entendeu. Esse foi o meu caminho, porque
assim desejei, por que isso me fez feliz. Cada um deve descobrir
o seu caminho. E quanto a riqueza, não aconselho que a abandone
aquele que não deseja proceder assim, nem há motivo para isso.
Não há nada de errado em ser rico.
"Mas há algo de errado em não saber utilizar bem a sua riqueza.
É preciso adquirir riqueza espiritual, para depois saber o que
fazer com a riqueza material. Saber que não somos aquilo que
temos, não somos o poder e a riqueza e, do mesmo modo, não somos
a pobreza. Na verdade,nenhuma das duas coisas existe.
A única verdade é que somos o verdadeiro eu, aquilo que há por
dentro e não a máscara que o sociedade nos impõe.
A Velha olhou para o homem, sabendo qual era a sua aflição
e disse, finalmente:
- Não sei se você crê nos deuses, se tem alguma religião, se
segue algum caminho espiritual. Mas isso não importa. O que te
direi serve para qualquer pessoa, em qualquer lugar, com
qualquer crença: Mede-se a vida de alguém dessa maneira: nobre é
a vida de um homem que lutou para ser feliz, que lutou por tudo
o que era bom para si mesmo, sem ferir, sem agredir, sem
prejudicar ninguém. Boa foi a vida de uma pessoa que, no fim de
tudo, foi lembrada pelas boas coisas que deixou à memória da
humanidade. Do mundo nada podemos levar, por isso importa
apenas aquilo que deixamos.
O homem foi embora e mudou sua vida radicalmente: passou a
realizar exercícios suaves ao ar livre, deixou de se preocupar
com coisas sem importância - se suas mercadorias chegariam a
tempo, ou se seriam roubadas. Passou - porque isso lhe fazia
feliz - a ajudar todos que precisavam - afinal,
possuía dinheiro suficiente para viver mais de cem vidas
nesta terra. Quando entrava em disputas comerciais, não se
preocupava mais se iria ganhar ou perder essa ou aquela venda.
Pois descobriu que ser um mercador era o que mais amava e
o seu amor fazia com que oferecesse quase sempre o melhor
negócio, quase sempre a melhor oferta, sem precisar competir com
os outros e até descobrir que toda a competição era
inútil. O amor ao que fazia vencia tudo.
O homem superou a doença, viveu tranquila e serenamente até os seus 96
anos e se tornou o maior vendedor que o mundo já conheceu.
Serviu de
inspiração para este texto, a história do empresário Henry Ford.
Lisandro |