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A Fábrica - 09/08/2008
O período mais infeliz de minha vida foi quando, num tempo de
dificuldade financeira, me vi obrigado a retornar ao primeiro
emprego de minha vida. Foi numa pequena fábrica de bolsas, agora
ampliada, que me vi numa espécie de prisão. No início achei que iria
me adaptar, mas foi uma mera ilusão. Passado algum tempo,descobri
simplesmente que odiava o antigo/novo emprego. O resultado foi, que
depois de 2 anos, me vi estressado, quase sofrendo um ataque
cardíaco - aos 28 anos de idade - e sem tempo para realizar aquilo
que mais gostava: ser músico. O pouco tempo que dispunha era um
final de sábado, quando não era obrigado a cumprir outras
obrigações. Quando ao meu livro, tinha de escrevê-lo no ônibus, ou
nos 20 minutos restantes do almoço. Parei para pensar e percebi que
o tempo estava passando e meus sonhos, a coisa mais importante para
mim, estavam ficando para trás. Aquilo que eu mais gostava de fazer
era o que menos tinha tempo para fazer. Terminei abandonando tudo,
passei a ser dono de um pequeno negócio próprio, que ainda não era o
que gostava, mais me dava mais tempo para fazer o que queria.
Passado os anos de tristeza, passei a
analisar o duro sistema de produção das fábricas. A mão de obra
especializada, na minha opinião, trata-se na verdade de um
trabalho escravo especializado. Com a indústria crescendo cada vez
mais, cresce mais ainda a disputa, a competição e os valores mais
importantes são deixados para trás. Vejamos dessa maneira: a empresa
1 achou que a empresa 2 ofereceu risco em determinado momento. Então
despediu alguns funcionários, que trabalhavam "devagar" e produziam
apenas 50 peças por dia. Contratou outros, com uma nova meta de
produção de 100 peças. Também trocou a matéria prima com redução de
50% do valor. O resultado foi que o produto ficou 50% mais barato e
assim, a empresa 1 conseguiu mais clientes que a empresa 2.
Que bom. Seria bom, se não
fosse trágico. Todos os funcionários antigos, que antes trabalhavam
tranquilamente, no seu ritmo, arrumaram novo emprego, agora temendo
serem mandados embora, passaram a acelerar seu ritmo de produção
feito loucos - não podiam ser mandados embora, não de novo. Os
funcionários novos, da empresa 1, também tiveram que manter o novo
ritmo, mesmo sabendo que era quase impossível produzir tantas peças
diariamente, pois na empresa anterior não era desse modo.
Insatisfação, frustração, e a sensação de que suas almas
desapareciam lentamente. Era isso o que sentiam. Quanto a nova
matéria prima, sem a qualidade anterior, não duraria tanto quanto
deveria. Mas não importa. O importante hoje em dia, pensava a
empresa, era a produção e rendimento. Era até melhor, pois as
pessoas precisariam comprar o produto novamente, em breve. Falta de
respeito com o próximo, dar o pior de si ao mundo, importar-se
apenas consigo mesmo. Era isso o que os donos da empresa faziam.
E assim esse ritmo frenético segue. Cada
vez mais, lixo industrial é produzido, para ser descartado em breve,
sugando de forma absurda os recursos naturais. Cada vez mais essa
disputa gananciosa faz os preços baixarem, o consumo aumentar,
juntamente com um aumento de trabalho para a mão de obra produtiva.
E essas pessoas, essas pequenas pessoas, meras peças do mecanismo
das empresas, são obrigadas a perder a própria vida em prol de um
capricho barato. Menos pessoas contratadas e as poucas que restam
tem de fazer o trabalho da maioria dispensada. É um fardo que o
mundo poderia deixar de carregar...
Quando as empresas e empregadores
valorizarem o ser, e verem o trabalho como uma expressão e forma de
Arte, tudo poderá mudar. Quando investirem mais na qualidade do
produto comercializado e na qualidade de vida de seus empregados
(hoje escravos), verão como o Verdadeiro crescimento acontece.
Quando oferecemos às pessoas ao nosso redor somente o melhor, assim
o melhor se manifesta em nós. Não financeiramente falando, mas de um
modo que nos traga satisfação pessoal. Uma divisão melhor do que
colhemos e plantamos com as pessoas que colaboram conosco,
funcionários ou clientes, não importa. Tudo é uma coisa só!
Retornando ao assunto de quando saí da
fábrica, descobri que, na verdade, o errado era eu. Porque quando
fazemos aquilo que não queremos, que não gostamos, o resultado só
pode ser a dor. Para quem gostava de costurar naquele empresa, com
certeza era feliz, mesmo com o baixo salário, mesmo sendo obrigado a
trabalhar num ritmo alucinado, mesmo sendo um mero objeto de
produção industrial. Com toda a certeza, eu ficaria feliz se
pudesse, nesse exato momento, viver somente da arte que tanto adoro.
E não me importaria que o salário fosse pouco. Eu estaria fazendo o
que mais gosto no mundo e isso seria a minha fonte de alegria e
vida. Mas me importaria se me exigissem mais do que poderia
oferecer, se me tratassem como um mero objeto, se quisessem fazer
com que eu perdesse minha alma e a minha identidade.
Foi por isso que passei a trabalhar
naquela fabrica em meu próprio ritmo. Sem me importar com os prazos,
com gerentes me cobrando, com a produção que precisava ser cumprida
(afinal, eles querem sempre mais...) Eu decidi que iria abandonar o
sistema e passei a me importar mais comigo mesmo. Que eu deveria dar
o melhor de mim para a empresa, como eles costumavam dizer, mas eu
descobri que o melhor de mim era trabalhar no meu ritmo, sem me
matar pela empresa. Trabalhando dessa forma, meu serviço
possuía mais qualidade, e eu colocava amor no que fazia, pensando
nas pessoas que iriam consumir aquele produto. Elas teriam o melhor,
simplesmente o melhor de mim, naquele objeto... E o ambiente a minha
volta até que melhorou, porque tudo passou a ser mais amigável. E se
a empresa achasse ruim (como acabou achando mesmo) poderia me mandar
embora. Por um acaso eu não teria, se quisesse, a capacidade de
encontrar outro trabalho? Será que o mercado lá fora estava tão
difícil como eles viviam dizendo? "Veja bem, valorize nossa empresa,
talvez você não consiga algo melhor lá fora..." Era o que faltava,
pensava eu. Além de tudo, pensam que estão fazendo um favor nos
mantendo empregados e escravizados. Mas, é claro que eu conseguiria
outro emprego. E ficaria rodando de fábrica em fábrica, até
encontrar aquele que me aceitasse como eu era e valorizasse o meu
modo honesto de trabalho, com meu ritmo certo e tranqüilo de fazer
as coisas, sem perder minha alma. Uma hora alguém iria me aceitar
assim. As pessoas me falavam "Mas alguns tem família. O que diremos
aos nossos filhos?". "Vocês passarão dificuldade, mas uma hora irão
conseguir e mostrarão a seus filhos como não se render ao sistema.
Mostrarão o eles o verdadeiro valor da liberdade", dizia eu. Por
fim, não fui mandado embora, mas isso estava prestes a acontecer,
depois de várias "conversas" com o supervisor. Terminei pedindo a
conta e caí fora do sistema. A sensação ao deixar a fábrica, foi a
de estar saindo de uma prisão.
Parece ingênuo o que vou dizer agora, mas funciona: Empresas,
valorizem seus funcionários, tratem-nos como gostariam de ser
tratados. Um salário honesto, participação nos lucros, prêmios,
alguns minutos de descanso a mais (algumas empresas já dispõe a seus
colaboradores 15 minutos de massagem, salas de leitura, karaokê,
shiatsu, tai chi chuan, exercícios), uma folga inesperada, um prêmio
inesperado. Eu me lembro do
cara que, quando possuía uma pequena fabriqueta no fundo do quintal,
na sexta feira à tarde saía com seus únicos 3 empregados e
pagava-lhes um lanche e um refrigerante para cada um. Mas, depois
que a empresa cresceu, se pudesse tirava os benefícios que fossem
possíveis. Outro possuía uma revista mafiosa, onde dizia que quanto
mais maltratados forem os funcionários, mais eles irão valorizar a
empresa e mais ele irá ganhar dinheiro. Outro dizia que muitos
benefícios fazem com que os funcionários se aproveitem do patrão
(mas por acaso não existe algo chamado demissão, ao invés de
maltrato e controle? Não seria assim que se deveria fazer para
manter os bons e retirar os maus funcionários?)
Ninguém fica pobre sendo generoso.
Ninguém perde tudo dando um dia de folga num momento de baixa
produção da empresa. Ninguém vai à falência dando uma rosa às
mulheres no dia Internacional da Mulher, os parabéns, um dia de
folga e um presente ao aniversariante do dia, um elogio ao invés de
cobrança àquele que se destacou, um presente ou uma gratificação a
todos quando a produção aumenta. Enfim, ninguém perde o que
conquistou quando trata seus empregados como verdadeiros amigos e
não como simples engrenagens de uma complexo mecanismo, que podem
ser substituídas a qualquer momento.
Lisandro |